sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Visões sobre a educação e a lição canadense...

Neste fim de ano, ponderamos muito sobre o post de encerramento. 

Descobri o tema, durante um vôo entre Recife e Rio. No bolsão em frente à poltrona do avião havia uma edição de revista semanal em que um pretenso "especialista" em educação enaltecia o modelo de educação chinês, como sendo adequado à realidade do Brasil. Ia além: lamentava que o fracasso do Brasil era (exatamente) por não incorporar um modelo educacional nos moldes chineses. 

Dou a dica pra quem não quiser ler a revista: esse modelo prevê um aluno máquina, sem tempo de entender e aplicar (em sua vida) aquilo que "pretensamente" está aprendendo. No caso citado, o "especialista" comemorava o fato do estudante chinês (que ele acompanhara) não ter tido nenhuma namorada durante toda sua vida (ele tinha quase 20 anos e assegurava que não teria nenhuma até os 25, quando completaria a faculdade). 

Fiquei - ligeiramente - preocupado... Primeiro pelo rapaz chinês, que ainda não experimentou algumas sensações agradáveis, nem entendeu pra que serve a vida, em última instância... Depois por mim, por amar a educação. É que em geral fico ressabiado quando vejo economistas falando sobre educação. 

Sou economista. Admiro muito a abordagem econômica, mas cá pra nós: tem um "probleminha" quando economistas falam sobre educação: é que eles tendem a crer que a economia deve "pautar" a educação. E isso, na prática, significa tratá-la (a educação)  como uma simples ferramenta de incremento de produtividade econômica. Ou seja, para economistas, a educação é uma simples ferramenta para tornar o ser humano mais produtivo. Isso é um equívoco... 

Em 2006, morei e estudei no Canadá por alguns meses... Nesse período visitei tudo que estava ao alcance. Entre os destinos, todos os museus de Toronto, as bibliotecas públicas, a UofT (Universidade de Toronto) e seus departamentos, as atrações turísticas, culturais e naturais, como os grandes lagos e as cataratas do Niágara, cidades próximas ou nem tanto como  Kingston (primeira capital), Ottawa, Montreal e a "européia" cidade de Quebéc. Além disso, tentei me integrar (caminhando muito) aos diferentes bairros multiculturais de Toronto.

Das atrações visitadas, uma das que despertou mais interesse foi uma discussão presenciada no Parlamento da Província de Ontário, cuja capital é Toronto. É isso aí: eu aproveitava algumas tardes livres para assistir às discussões parlamentares.  

Recomendo fortemente, inclusive, aos que tem a oportunidade de visitar casas parlamentares, seja no Brasil ou fora dele que o façam. É uma das experiências mais decisivas na formação política de um ser humano. Em Brasília, por exemplo, é absolutamente produtivo (eu estou falando sério) visitar sessões das Comissões do Senado Federal ou da Câmara, como a de Relações Exteriores e Segurança Nacional, a de Assuntos Econômicos entre outras. É lá que se percebe como é (de fato) desempenhado o mandato dos parlamentares. Não recomendaria prioritariamente as visitas ao Plenário, em que o espaço do genuíno debate cede lugar ao pragmatismo político na aprovação das leis...

Voltando à Toronto, em 2006, a discussão a que assisti versava sobre um projeto de lei provincial que conferia critérios diferenciados para estruturação dos planos didáticos que seriam observados nas escolas públicas de Ontário, já que nela se observa uma elevada proporção de crianças oriundas das mais diversas culturas: árabe, asiática (majoritariamente chinesa), hispânica e até brasileira. O Canadá é (e continua sendo) pólo de atração migratória. É país de imigrantes, conheci vários.

Em Spadina, a principal avenida da Chinatown de Toronto, há vários centros comerciais que exalam os aromas da culinária chinesa. Impressiona. Impressiona o abismo cultural que nos separa dos chineses, por exemplo.  De cultura pragmática, para os chineses, a energia do indivíduo deve ser canalizada para execução de suas tarefas ou deveres. Aos chineses, do ponto de vista cultural dominante, não é "aceitável" a "perda" de tempo com "conversas à toa". Dos próprios canadenses, a "Small Talk", a conversa que descontrai não é bem vista pela cultura chinesa. A comunicação e o processo negocial dos chineses é de uma objetividade cartesiana. Não há espaços para brincadeiras... E - sabemos bem - brincar é fundamental à construção de uma personalidade saudável.

Voltando ao aeroporto do Galeão, já no final do ano de 2011, eu estava desconcertado. O modelo de educação chinesa, ou melhor, a "arma de educação em massa chinesa" me trouxera preocupações significativas... Para o "especialista" em educação, nosso problema era não termos sido "brindados" com uma "Little Boy" destas em nossas cabeças (esse é o "apelido carinhoso" da bomba atômica lançada sobre Hiroshima). 

Felizmente, não sou único a perceber a inadequação de modelos culturais exógenos à realidade de países como o Brasil. Em visita ao Café Filosófico, Mario Sérgio Cortella esclarece de maneira decisiva (clique no vídeo abaixo, que também está disponível no youtube, no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=EnUtJgr-J4Y):



Enfim, parece que aquela tarde no Parlamento de Ontário serviria como espécie de "luz no fim do túnel" na tentativa de refletir sobre o respeito às diferentes realidades culturais. Respeitar diferenças é princípio básico de qualquer sistema educacional razoável. Educação não é ferramenta (por mais que isso pareça inaceitável para economistas) e só ela (a educação) pode promover uma revisão dos padrões de comportamento (inclusive econômicos) que ora põem nosso modelo de civilização em xeque.

A educação é coisa séria demais... É triste que no Brasil, ela fique relegada e "capturada" num sistema de seleção adversa em que os mais vocacionados para educação sejam atraídos por remunerações mais altas, praticadas em outras áreas de atuação. 

É lamentável que em cada sala de aula do país, os melhores alunos, os mais brilhantes sinalizem  (quase sempre) a intenção de ter profissões que remunerem acima da média dos rendimentos pagos na área de educação. A área de educação é fundamental demais para prescindir destes talentos...

É esta nossa contribuição mais decisiva para o futuro: compromisso com a educação de verdade. Não aquela instrumental, que promete ensinar a resolver problemas complexos de cálculo e incapacita o ser humano a sentir emoções...


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Amyr Klink, Caracas, e uma lição sobre preconceito...

Há algumas semanas, li um texto de Amyr Klink que gostaria de transcrever:

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

Há vários anos, venho acompanhando o desenrolar de acontecimentos na Venezuela. As informações que são apresentadas pelos veículos de comunicação no Brasil dão conta de problemas muito graves de segurança e de instabilidade política severa. Fui ver com meus olhos... Ao final, relato minha impressão.

No início do ano, participei de um evento cultural promovido pela embaixada da Venezuela, em Brasília. No evento, houve apresentações de artesanato, música popular venezuelana (sugiro ao leitor pesquisar no youtube o grupo Caracas Sincrônica, de uma espetacular musicalidade) e um festival gastronômico, em que se pôde degustar a culinária típica daquele país. Tudo tão espetacular que em alguns meses, estava eu em Caracas. É importante frisar: sem patrocínio algum!

Detalhes práticos: 

De Brasília, há vôos diretos entre várias cidades da América do Sul, o que em logística se denomina "economia de Hub" e no seu bolso significa (R$$$$$) a mais... Quando se está numa cidade que conta com muitas opções de vôos e companhias aéreas, sua chance de conseguir promoções aumenta. O trecho aéreo entre Brasília e Caracas (ida e volta), saiu por menos de mil reais, pela Copa Airlines. E aí vai outra dica: a Copa tem sua base de operações no Panamá. Então adivinha qual foi o "plus adicional a mais"? É isso aí: conhecemos o Panamá, sem necessidade de pagar nada mais por isso. Já que a conexão entre os vôos de Brasília ao Panamá e de lá até Caracas pode ser programada com intervalo mínimo necessário à visita da Cidade do Panamá, visitamos o Canal do Panamá e o Casco Antiguo, que é o centro histórico da cidade. 

Quanto à hospedagem, Caracas tem excelentes hotéis mas o preço médio é alto. Provavelmente, chega-se à conclusão de que é melhor reservar um hotel de alto padrão, tentando barganhar alguma promoção do que tentar reservar hotéis mais simples, que têm tarifas relativamente caras. 

Do ponto de vista prático, reservamos dois hotéis pelo site decolar.com: Na média, conseguimos uma diária em torno de R$200, em quarto duplo, hotel de alto padrão (5*). A equipe reservou quartos em dois deles: o GranMeliá Caracas e o Eurobuilding Suites. Resumo: se for, reserve com bastante antecedência, tentando verificar as promoções em hotéis mais sofisticados, já que a média de preços é (naturalmente elevada), os caros se tornam relativamente "baratos"...

Quanto ao transporte público, é espetacular: o metrô de Caracas é considerado (com mérito e justiça)  um dos melhores da América do Sul. Há um sistema de transporte rodoviário que se integra do metrô e torna a vida do visitante muito mais fácil. Para se ter uma ideia de como é fácil se locomover, desde o Eurobuilding pode se tomar um metrobus (que se interliga com a estação de Metrô) e custa apenas um bolivar fuerte (o que valia aprox. 40 centavos de real, no início de novembro/2011). Ou seja, em Caracas, transporte público é muito barato e a qualidade é alta. Duas observações apenas: há um sistema de transporte alternativo que não conta com a mesma regularidade e frequência e o trânsito é tenso. Muitos engarrafamentos e congestionamentos incitam você (muitas vezes) a descer e ir caminhando mesmo. Por isso, o metrô é tão valioso: permite que você consiga cruzar a cidade, sem ficar parado por horas a fio...


Quanto à alimentação, sem sustos. Preço honesto e culinária que deixa saudades.


Agora, o mais importante: as atrações de Caracas.


Muitos já devem ter se perguntado: o que "cargas d'água" se vai visitar em Caracas? O problema é a velha análise de custo-benefício do destino venezuelano. Como há um batalhão de veículos de comunicação sinalizando quanto aos seus riscos urbanos, e poucos mostrando as coisas que valem a pena ser visitadas, poucos são os brasileiros que têm optado pela cidade como destino turístico. 


Observamos uma dinâmica perversa: por exemplo, todos os incentivos sinalizados em relação à Colômbia são proporcionais ao "desincentivo" relativo à Venezuela. De acordo com percepções dos colaboradores do Viagens & Reflexões, a mídia tende a "confundir sua avaliação" sobre o líder político com a do país propriamente dito. Como o presidente Hugo Chavez Frias não é tão estimado por D. Mainard e Cia Ltda., a Venezuela tem sido relegada a um injusto "segundo" (para não falar em terceiro ou quarto) plano... O que é - sinceramente - uma pena. Vejamos o porquê:


O roteiro básico para quatro dias na capital seguiu o seguinte cronograma:


1º dia: visita ao centro histórico de Caracas. Várias atrações artísticas, históricas, culturais e arquitetônicas. Destaque para rede pública de livrarias populares, com livros importantes para formação cultural da América Latina, com preços absolutamente acessíveis.


2º dia: visita à cidade de La Guaira, que sedia o principal porto do país. De lá, em poucos minutos, é possível visitar várias praias do Caribe venezuelano. O azul turquesa não desaponta...


3º dia: visita aos jardins e boulevards de Caracas e subida ao teleférico que garante vista privilegiada de toda cidade de Caracas. Simplesmente, formidável. O teleférico é segmentado em fases e sobe mais de 2 mil metros, em todas as etapas. A proximidade do clima de montanha, com acesso tão facilitado são aspectos não desprezíveis. 


4º dia: pausa para o descanso e aproveitamento da infraestrutura hoteleira disponível., conforme nossa dica sobre hotelaria acima. Ninguém é de ferro...


Como diria Klink, é preciso viajar e ver com seus olhos, pois o risco de se tornar doutor do que não se conhece (efetivamente) é grande demais. Caracas, diferentemente, do que se poderia imaginar (pelos relatos midiáticos) vale muito a pena...


Suerte!









sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nova Iorque: de "cidade inesgotável" a "poço sem fundo"...

Ontem, o dólar perdeu valor contra o real, um dia de entusiasmo. Com limites, é claro!

Após semanas de indefinição na Europa, foi aprovado o pacote econômico de enfrentamento à crise. As bolsas registraram altas significativas ao longo do dia. Só no IBOVESPA, quase 4% de valorização média. 

Assisto hoje (de madrugada) à televisão quando me surpreendo com novo problema. Aliás, nova, só a notícia. O problema já tem alguns anos. Mas como já dissemos no post sobre Paris e a Chapada dos Veadeiros, agora o "humor" não tá legal...

Em Nova Iorque, centro financeiro global e sede da principal bolsa de valores do mundo, o jornalista aborda, num grupo de pessoas acampadas e "ocupando Wall Street" (para quem quiser aprofundar, vale a pena dar um "Google" na expressão "occupy Wall Street"). 

A estudante relata desanimada: está devendo (sozinha) quase R$100mil. E não tem nem ideia de como vai pagar a dívida. 

Estátua símbolo do mercado outrora "altista" da bolsa de Nova Iorque

Agora, o problema (desculpe, a notícia) é que o endividamento dos estudantes americanos multiplicou por sete na última década. Agora o saldo devedor no "FIES/crédito estudantil" dos EUA já acumula quase 600 (seiscentos) bilhões de dólares. Detalhe: sem vagas abertas, os estudantes estão se formando sem conseguir ingressar no mercado de trabalho (o desemprego alcança níveis recordes). Sem renda, inadimplência direta. Isso é a explicação microeconômica. Triste, mas tolerável...

Já não tolerável é a mesma notícia dum ponto de vista macroeconômico: a sistemática/problemática é igual a das hipotecas: dívida securitizada. Ou seja, o credor original transforma o contrato de dívida em título negociável. Aí é que o problema surge. Como há uma cadeia "não rastreável", não se consegue mensurar exatamente o nível de exposição de cada agente a tais ativos financeiros e a suas derivações exóticas. 

World Financial Center, visto do rio Hudson (2006)
Explicando melhor: antes o credor "carregava" o contrato até o final. Eventual calote já tinha um destinatário certo. Agora, não. Vários agentes econômicos negociam tais "contratos-títulos" e não se sabe bem a exposição de cada um a este tipo de ativo. E pode confiar: a incerteza é o pior dos venenos no mercado financeiro. Eu até arriscaria: para quem teve infância, equivale à "criptonita" posta frente ao "Superman".
Lower Manhattan vista do Hudson
Passemos à parte "boa" do post: Nova Iorque é fascinante! A capital econômica do mundo. Lá pode-se entender a razão pela qual se chama um edifício de "arranha-céu". Para quem admira arquitetura, é uma experiência inesquecível. 

Gravura do Chrysler Building, no hall do edifício


Torre principal do Rockefeller Center

O edifício-sede do Citigroup, na terceira avenida
Visitamos a cidade em 2006, no mês de março. Frio! Como é uma cidade litorânea, as temperaturas baixas são potencializadas pelos ventos. Ou seja, se for nessa época, por favor: capriche no agasalho.

Outras dicas importantes:

- Tem acontecido muitas promoções para os trechos aéreos entre Brasil e Nova Iorque. Se dispuser de tempo para planejar, vale a pena conferir a emissão de bilhete-prêmio com milhas. Pela TAM é possível emitir a partir de 40 mil milhas, ida e volta. 

- Hospedagem: se você estiver disposto a enfrentar uma das precificações mais "duras" do mercado da hotelaria internacional, pode ficar em Manhattan. Caso contrário, eu recomendaria algum hotel em Nova Jersey.

Só para dar um exemplo: No AmeriSuites Secaucus, situado à 575, Park Plaza Drive, Secaucus, New Jersey, você consegue pagar uma diária que deve ficar por um terço do preço cobrado na ilha e o "plus adicional a mais" é o seguinte: dá pra pegar um ônibus regular que deixa você na rodoviária de Nova Iorque, em plena rua 42. Nos dois sentidos, tanto pra ir quanto pra voltar. 

Foto tirada na janela do Amerisuites, com Nova Iorque no horizonte.
A alguns blocos da rodoviária estão várias atrações: Times Square, Chrysler Building, Fundação Ford, Grand Central Station, enfim: muita coisa interessante perto! Com uma diária em torno de 90 dólares, se consegue hospedagem confortável e bom café da manhã, para dois. Enfim, boa relação custo-benefício.

- Transporte: não há dúvida, o metrô é a melhor alternativa. Única ressalva ao modal de transporte: evite tomar metrô de madrugada. É um dos sistemas metropolitanos mais "cinzentos" do mundo. Se fosse noutro lugar eu até arriscaria: muito sinistro! Há passes diários que dão acesso ilimitado por horas consecutivas. Isso permite que se conheça vários pontos da cidade. Evite de todas as formas o aluguel de carro: não arruíne seu projeto de viagem. Tudo relacionado ao uso do carro é caro. Tanto em termos financeiros quanto em termos de tempo. Há muitos congestionamentos. Resumo: fuja da superfície, vá para o "caminho subterrâneo" ou "subway".
Exemplo típico do tráfego em Nova Iorque
Quanto aos passeios e gastronomia, vou simplificar nossas vidas: compre um guia só pra NY. Essa cidade é inesgotável em atrações... Há opções para vários gostos. Se você tiver pouco tempo para visitar ou se quiser fazer o esquema mochilão, lá vai a dica: o site da Hostelworld tem um guia de bolso, com três páginas em que dão dicas valiosas sobre como maximizar a utilidade de cada centavo de dólar. E aproveitar cada segundo na cidade. Ele tem uma coluna em que dá um roteiro básico pra quem tem apenas um dia. Vale a pena conferir.

Só arriscaria três dicas: 

1. Reserve um bom pedaço de seu dia para caminhar pelo Central Park. 

2. Não perca a visita ao Empire State. Do topo, se pode observar toda a ilha. Dá uma olhada na foto abaixo:


 3. Não deixe de cruzar a Brooklyn Bridge, à pé. Tome um metrô até o Brooklyn e volte caminhando. Vale a pena!

Vista da Brooklyn, desde a Manhattan Bridge.
Agora, depois dessa notícia sobre a estudante, me dou conta de que esta crise está pondo "em xeque" a estrutura da economia. Cidades (exemplos típicos da capacidade econômica de uma sociedade) que antes pareciam inesgotáveis, agora aparecem (num plano secundário) como cenário de um "poço sem fundo"...

Isso faz pensar sobre "castelos de cartas". 




domingo, 18 de setembro de 2011

A simplicidade voluntária numa praça de Urubamba...


A simplicidade voluntária é um estilo de comportamento que tem se baseado na opção por uma vida mais simples, com menos sofisticações desnecessárias. Esse movimento tem surgido como uma resposta prática ao risco da sempre iminente insaciabilidade humana... Explico melhor: na última viagem, depois de quatro dias de paisagens fantásticas, experiências marcantes, pessoas incríveis, pratos exóticos, um dos membros do grupo asseverou, faltando algumas horas apenas para o regresso ao Brasil. Tentarei narrar suas palavras num discurso direto livre:


-Pra mim, até agora, a viagem tá "boazinha". Pra ficar "legal" precisaria comprar umas lembrancinhas. (e aqui explico: bugingangas mesmo!)


Dessa vez, fomos ao Vale Sagrado, no Peru. É uma região de assentamento antrópico que se desenvolveu ao longo do rio Vilcanota, que dá origem ao majestoso Amazonas. As principais cidades Incas estão ao longo do rio. Machu Picchu (que significa montanha velha, em quéchua) é o principal dos sítios arqueológicos da região. Na década de 80, a Unesco incluiu as ruínas no acervo do "Patrimônio da Humanidade". Há alguns anos, ganhou o título de uma das sete maravilhas do mundo moderno.

Ruínas incas de Machu Picchu (2011)

Rio Vilcanota corre ao longo do Vale Sagrado dos Incas (2011)
Como todos já devem saber, o Viagens & Reflexões tem uma predileção e carinho especial pelo Peru. Alguns membros de nossa equipe já asseveraram: se o Peru fosse um "filme", conquistaria provavelmente uma "estatueta" de "melhor fotografia"...

Passemos aos detalhes práticos da viagem: 

Numa viagem ao Vale Sagrado, no Peru, a estruturação prévia do planejamento aéreo vale ouro: os bilhetes para Cusco (aeroporto mais próximo à Machu Picchu) são caros. Por isso, vale muito a pena planejar com antecedência. Há vários vôos diretos até Lima, partindo de São Paulo, Rio e Brasília. Para chegar à Cusco, a maioria faz conexão em Lima.  


O planejamento também inclui a posição das poltronas no avião. Quando se viaja à América do Sul, a países como Chile ou Peru, a viagem em si já é um atrativo singular, já que é possível contemplar a imponência da Cordilheira dos Andes. A dica de ouro no Check-in é a seguinte: se estiver fazendo trechos cuja direção é leste-oeste (ex.: Brasília-Lima, São Paulo-Santiago do Chile), peça poltronas situadas nas janelas do lado direito da aeronave!  Caso a direção do vôo seja oeste-leste (ex.: Lima-Cusco), peça poltronas situadas nas janelas do lado esquerdo da aeronave! Fácil? Pode ter certeza de que vale a pena! Dá uma olhada no visual das imagens abaixo registradas:

Cordilheira dos Andes (2011)

Cordilheira dos Andes (2011)

Cordilheira dos Andes (2011)

Cordilheira dos Andes (2011)
De Cusco, há duas opções para chegar a Aguas Calientes (ou Machu Picchu Pueblo, povoado mais próximo às ruínas).  Uma informação financeira: a cotação entre reais e novos sóis (moeda peruana), em 16/set/2011, era de aproximadamente 1,5 nuevos soles por Real.

A primeira opção se divide em três fases: 1) de Cusco até Urubamba, de ônibus que sai da estação Pavitos e custa S./4 (quatro nuevos soles); 2) de Urubamba até Ollantaytambo, de "vans" que fazem o trajeto, que custa S./ 1,30 (Um novo sol e trinta centavos) e 3) de Ollantaytambo até Aguas Calientes, de trem, pela PeruRail, o que sai por quase USD 40 (quarenta dólares). Aqui vai um "elogio" à PeruRail: tanto o preço quanto o padrão de serviço são "de primeiro mundo" (quem administra a PeruRail, a despeito do nome é a européia OrientExpress). 


Registro importante: É óbvio que na primeira opção não se deve desperdiçar a possibilidade de conhecer tanto Urubamba (e seu ritmo em "câmera lenta") quanto Ollantaytambo, que é conhecida como a cidade inca viva. Sua estrutura urbana é original e data da América pré-hispânica. Esta opção vai demandar tempo! Tanto para os traslados quanto para o tempo necessário às caminhadas pelas cidades de Urubamba e Ollantaytambo, no Vale. Quanto aos traslados, não se deve esperar um serviço expresso das vans ou dos ônibus que fazem o trajeto. Não estamos falando da OrientExpress! Em compensação, o contato real com a população peruana (que naquela região descende dos incas) é algo marcante! Pessoas muito cordiais. Ou seja, pode até parecer perda de tempo, mas no fundo está se ganhando tempo e experiências inesquecíveis...

A segunda opção, bem mais rápida, é tomar um taxi, por S./30 (trinta nuevos soles) do hotel em Cusco até a estação Poroy, que está a vinte minutos do centro da cidade e, de lá, tomar o trem (pela PeruRail, também) até Aguas Calientes, aí sai por aproximadamente uns USD 70 (setenta dólares). Nesta, ganha-se tempo mas perde-se uma experiência incrível!



Nesta viagem, tivemos a possibilidade de vivenciar as duas situações e por tal razão, pode-se dizer que entrar em contato com a vida real das populações locais é algo inestimável...


Atualmente, quem quer visitar as ruínas de MachuPicchu deve estar atento ao seguinte ponto: em razão do controle de acessos, está limitado ao número de 2.500 visitantes por dia. Por isso, quando estiver planejando a viagem, ainda aqui no Brasil, vale a pena entrar no site: http://www.machupicchu.gob.pe/. Daí, só depois deve-se proceder à compra dos bilhetes de trem pela PeruRail

Outra dica em favor das boas fotos, nos trens da PeruRail: é fundamental estar sentado à esquerda do trem (seja partindo de Poroy ou de Ollantaytambo, com destino a Aguas Calientes). Assim, pode-se acompanhar o percurso do Vilcanota. Caso esteja disposto a investir mesmo no visual, há um trem chamado Vistadome (que equivaleria a "classe executiva"), que tem janelas no teto e que servem para alcançar as incríveis visões da Cordilheira bem acima do trem. O detalhe de ouro: a maior parte dos bilhetes Expedition (que equivaleria a "classe econômica") é operado em vagões do VistaDome. Ou seja, se tiver coragem e gostar de correr riscos, pode-se comprar o Expedition, economizar uns dolares e ainda levar o mesmo visual dos que pagaram pela "executiva". Dá uma olhada:

Rio Vilcanota, Vale Sagrado dos Incas (2011)

Um dos picos dos Andes, visto das janelas do teto do trem, Vale Sagrado (2011)
No destino, Aguas Calientes, existem muitos hotéis, pousadas, restaurantes e um clima extremamente agradável, já que estamos falando de uma área muito menos árida. No povoado há termas públicas mantidas pela prefeitura local em que se pode entrar pagando apenas S./ 10 (dez novos sóis). Uma dica importante: se você já esteve na Pousada do Rio Quente ou nas Termas de Araxá, por favor esqueça delas pra aproveitar as termas de Aguas Calientes. Não dá pra comparar! O grande valor delas está no fato de que propiciam um relaxamento fundamental para quem subiu cada um dos milhares de degraus na visita à MachuPicchu. Comparar, às vezes, não é produtivo!

E aqui chegamos à conclusão de nosso texto: hoje, já de volta ao Brasil, tive a oportunidade de assistir ao filme Larry Crowne, de Tom Hanks, onde há uma cena curiosa que dá início à "reestruturação" da vida do protagonista, no filme. Desempregado, vai ao posto de gasolina abastecer seu carro e descobre que não dá pra "viver" gastando tantos "galões de combustível", cotidianamente... Decide comprar uma lambreta!


Na cena, lembrei-me instantaneamente de uma personalidade marcante que teve contato com nossa equipe, numa pracinha de Urubamba, no meio do Vale Sagrado. Um cidadão europeu que decidiu viver com menos. Bem sucedido na carreira executiva, optou por "desacelerar". E isso é marcante: a pracinha de Urubamba é como uma daquelas cenas em "câmera lenta", que ficam registradas em nossa mente pelo resto de nossas vidas. Seja pela altitude, seja pela falta de oxigênio em abundância, seja pela opção, todos que ali estavam, estavam vivendo num ritmo menos alucinante...


Vista da praça central de Urubamba, com os Andes ao fundo (2011)

A sesta e a baixa velocidade de Urubamba (2011)

É nestes momentos em que se tem a certeza de que o "ato de viajar" é o maior promotor de contatos extraordinários de nossas vidas. 


Nesta viagem, dedicamos uma homenagem especial a duas figuras extraordinárias: uma amiga peruana, que tivemos a oportunidade de conhecer durante o regresso entre Urubamba e Cusco, a quem agradecemos pelas palavras em favor da vocação humana, e ao cidadão europeu que hoje vive, voluntariamente simples, no Vale Sagrado e serve de exemplo e contraponto ao padrão. 

domingo, 14 de agosto de 2011

Entre a Chapada dos Veadeiros, Paris e a crise iminente...

Este post é a narração das últimas duas semanas.

Quanto à última semana, todos já sabem: o "humor" nos mercados internacionais não estava lá essas coisas...

Há duas semanas, visitei o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Percorri a trilha dos Cânions. O percurso é supervisionado pelos guias do parque. São mais de dez quilometros no total. Um percurso que surpreende pela paisagem. O Cerrado impressiona pois lembra escassez. Engana, portanto. Nele, situa-se uma proporção superior a um terço da biodiversidade catalogada no país.

O trajeto em rodovia, a partir de Brasília, tem aproximadamente 250 km. Saindo às 15h de Brasília, chega-se a Alto Paraíso de Goiás às 18h. Para quem tiver interesse, o povoado de São Jorge situa-se à porta do Parque Nacional. Para quem preferir a conveniência de acordar à porta do Parque, vale muito a pena ficar lá. Há vários restaurantes e pousadas bem estruturadas.

Preferimos ficar no município de Alto Paraíso de Goiás. Uma amiga deu a dica: como São Jorge não é área urbana, você deve se preparar para encontrar animais silvestres em todos os lugares...


A BR-010 e a Chapada no horizonte

Cerrado, ao longo da GO-118, "cedendo" espaço ao agribusiness
O Cerrado não é a Floresta Amazônica, definitivamente... O clima é seco e durante vários meses do ano (entre julho e setembro), a umidade relativa do ar "beira" o nível de áreas desérticas. Sua vegetação é esparsa e arbustiva. O solo é seco e pedregoso. E isso tem uma implicação não trivial: 1 km naquele terreno desgasta muito mais por conta das lesões que causa ao solado dos pés. O sol é inclemente e a sensação é de que está caminhando num deserto. Então, imagina como ficam os pés após os dez quilometros da trilha...
Vegetação arbustiva do Cerrado, Chapada dos Veadeiros (2011)
Fotos do terreno, Chapada dos Veadeiros (2011)

Uma das poucas fontes de água disponíveis ao longo da trilha

O calor do percurso tem um significado não tão evidente no início, mas depois, tudo se revela:

Todo o esforço da ida é recompensado quando se chega ao primeiro dos Cânions. Lá é possível mergulhar e nadar por quase duas horas. Depois, mais duas horas na Cachoeira das Cariocas. E isso tem um significado especial quando se está caminhando a muito tempo. A água revitaliza o corpo e todo o esforço da caminhada encontra seu sentido.


Um dos cannions da Chapada dos Veadeiros (2011)  

Cachoeira das Cariocas, Chapada dos Veadeiros (2011)


A jacuzzi natural das Cariocas, Chapada dos Veadeiros (2011)

Os momentos finais da trilha é que me chamaram mais à atenção: uma das integrantes do grupo (o grupo tinha dez pessoas, o limite permitido por guia acompanhante) chorou copiosamente. Na minha avaliação o choro sinalizava quanto ao cansaço e tensão da caminhada. Embora um trajeto de dez quilometros não pareça tão absurdo, num cenário árido, com pedras pelo caminho a machucar os pés e sol de "rachar", o choro não deveria ser qualificado como irrazoável...

No cotidiano, em trajetos urbanos, com ruas asfaltadas e calçadas adequadas, caminhar dez ou até mais pode passar despercebido, na Chapada, não.

Há uma semana, na sexta-feira, tive a sorte (e é bom que se registre: sorte é a mais fundamental das competências) de encontrar às 18:40, no elevador do prédio em que trabalho, saindo do expediente, duas colegas com as quais nunca havia conversado antes e das quais não tenho a mínima ideia de seus nomes, mas cujo diálogo decifrou-me o enigma. Vou citar "aproximadamente" as palavras de uma delas para outra:

"Imagine só: Foi maravilhoso! Conhecemos tudo! Caminhamos desde o Hotel de Ville até Montparnasse, atravessando a rive gauche..."

Só para ilustrar os extremos do trajeto acima citado, abaixo estão: o Hôtel de Ville (a prefeitura de Paris, fotografada à noite por nossa equipe em viagem à cidade, em 2008) e a Tour de Montparnasse, ao fundo, numa foto de um dos nossos correspondentes, em 2004.

Hôtel de Ville, Paris (2008)

Tour Montparnasse ao fundo, Paris (2004)
Entendi e me lembrei, naquele exato momento, das diferenças que explicavam tanto o choro da minha companheira de trilha (pela Chapada dos Veadeiros) quanto a euforia de minha colega anônima ao narrar sua experiência em Paris. Eu havia percorrido (ida e volta) o trajeto similar em Paris, no ano de 2004. Esse trajeto perfez mais de dez quilômetros, isso, depois de ter percorrido as infindáveis galerias do Louvre em busca da Gioconda, do Código de Hamurabi, da Vitória de Samotrácia e finalmente da Venus de Milo. Ah, sim, lá vai uma dica: se você quiser conhecer e percorrer todo o Louvre, são necessários vários dias. Há bilhetes mensais para quem quer degustar e conhecer todo o acervo do museu...

Entrada do Museu do Louvre, Paris (2008)
Código de Hamurabi (Louvre, Paris)

Galeria de escadas com a Vitória de Samotrácia ao fundo (Louvre, Paris)

Venus de Milo (Louvre, Paris)

Gioconda (Louvre, Paris)
Parece pouco, mas procurar essas quatro obras de arte, no Louvre em 2004, balbuciando palavras em francês... Não foi trivial. No fim daquele longínquo dia de 2004, eu percorrera - com certeza - mais de vinte quilômetros. Só que - curiosamente - ao final da trilha da Chapada eu sentia como se tivesse caminhado mais... O que era - evidentemente - um grande equívoco.

Embora seja óbvio que a diferença de contexto (entre Paris e a Chapada) explique parte significativa do abismo que separa o choro e a euforia, ela não explica tudo... Naquele elevador,  há uma semana, compreendi que a resposta está no âmbito psicológico. É o cérebro e o comportamento humano que explicam essa aparente inconsistência de avaliação.

Em caminhadas como as da trilha dos Cânions, toda concentração é no terreno, para evitar quedas ou torções. Em cidades como Paris, tudo chama à atenção e não é propriamente o chão... Os edifícios e obras de arte literalmente distraem o cérebro que, "ocupado", não dá conta do esforço físico que o corpo está realizando. É óbvio que no dia seguinte, a "brincadeirinha" do nosso cérebro (nos enganando) se fará sentir em cada músculo e articulação dos membros inferiores...

Agora, prezado leitor, você deve estar se perguntando: Sim, e o que tudo isso até agora tem haver com a crise? 

A principal e mais fundamental característica da economia é a fé. Jonh M. Keynes cunhou uma expressão que define bem como o sistema funciona: profecias auto-realizáveis. Em economia, se todos acreditam que tudo vai dar certo, os investimentos acontecem e o crescimento ocorre. Por outro lado, quando o referencial muda e o pessimismo se instala, crescer não se torna tão provável.

A economia é um campo de abordagem fortemente psicológica. Os referenciais são tudo. Referências são como sinalizações ao longo de uma via. Só que num plano mental.  

Para alguém que já caminhou "sorrindo" mais de 20 km (num só dia em Paris) e depois de alguns anos vai caminhar "sofrendo" os 10 km na trilha da Chapada, os referenciais são muito importantes. Isso vale tanto para pessoas, quanto para economias inteiras.

O sistema econômico global tem experimentado uma crise de referências: o dólar se enfraquece, a dívida soberana de países centrais (que sempre significou "aplicação financeira livre de risco") se torna "arriscada demais" e os países ricos se tornam "menos" ricos. Isso tudo, definitivamente, não é trivial...

Num plano psicológico, a iminente crise econômica funciona como se o cérebro sinalizasse para o corpo, logo no início da caminhada pela Cidade Luz,  que não vai dar... Antes, pelo menos, o aviso só chegava no dia seguinte. O corpo doía, mas a caminhada estava feita. Talvez, agora, seja mais provável que não percorramos os vinte quilômetros num dia só. A psicologia humana tem dessas coisas: às vezes, percebemos que a caminhada, mesmo em Paris, está exagerada...


domingo, 3 de julho de 2011

Lições de uma viagem à Atenas...


Às vezes parece que nossa linha editorial é muito à esquerda. Após este post, acredito que a percepção geral vai mudar...

Um grande amigo fez uma observação útil depois do último post. Meus textos poderiam adotar uma abordagem mais prática, indicando procedimentos para "viajar mais com menos". Ou seja, gastar menos e viajar mais... Ele até sugeriu a criação de um blog paralelo, do tipo: www.maodevaca.com.br. É óbvio que ele já não figura mais na lista dos amigos...

Essa semana tive a oportunidade de conciliar. E cá pra nós: eu adoro conciliar!

Em 2008, eu e minha (na época) namorada estávamos na França e teríamos uma semana livre. 

Acredito que as boas oportunidades se viabilizam com a observação de detalhes: entrei no site da EasyJet (www.easyjet.com) e consegui reservar passagens entre Paris (Orly) e Atenas, por menos de 100 euros por pessoa. No site da Booking (www.booking.com) conseguimos uma reserva num hotel razoável, no centro de Atenas, por 36 euros a diária. Assim, a viagem estava estruturada: quando se deseja conhecer um lugar, o principal é ter na mão uma passagem para aquele destino e a reserva de hotel para dormir nele. O resto é acessório e pode-se fazer na hora.

Em relação ao aéreo (é bom que se diga, com esse preço), não deveríamos

- Despachar bagagens (que tem custo de despacho cobrado por mala e peso, na EasyJet só tá incluída na tarifa a bagagem de mão). Qualquer "malinha" torna o bilhete barato, um bilhete normal;

- Esperar horários confortáveis (teríamos de chegar ao aeroporto de Orly às 3h da matina), o que trouxe uma decisão à mesa: se decidíssemos dormir num hotel, a "vantagem" do preço promocional escoaria pelo ralo: como Orly fica no subúrbio de Paris, qualquer taxi tomado "de madrugada" do hotel em que estávamos em Bagnolet custaria quase uns 80 euros, e em adição, não seria a melhor noite de sono de nossas vidas, já que acordar às 1h da madrugada não é o que convenciona chamar de conforto e ainda pagar por mais uma diária de hotel, que até nos arredores de Paris, sai por uns 70 euros, no mínimo. Em resumo: nossa decisão foi a de que dormiríamos em Orly. Para quem tiver interesse, vale a pena o site: http://www.sleepinginairports.com/

(Posso adiantar uma coisa pra vocês: Orly é um dos aeroportos mais confortáveis em que eu até agora dormi. Contrariamente ao que o site especializado acima indica, ele tem algumas poltronas estendidas, sem apoios de braço, que permitem que você durma sem ter de se contorcer como uma ginasta russa ou ficar com os joelhos flexionados por horas a fio...);

-  Por último, não ansiávamos por um serviço de bordo com cristais e porcelana (Só pra avisar: na EasyJet até o copo d'água é cobrado e isso pra uma viagem de aproximadamente quatro horas, é um pouco difícil de aguentar...). Lá, de "gratis" só o oxigênio da cabine pressurizada; 

Superando estes detalhes chatos, dá uma olhada na foto abaixo: é da janela do avião, chegando à Atenas. O mar é de um azul nítido como o da bandeira nacional grega. 

Foto tirada durante os procedimentos de pouso na chegada  à Atenas (maio/2008)

Contemplando a foto acima, pode-se lembrar facilmente a razão pela qual o mar faz parte da constituição cultural da Grécia. São muitas ilhas, e na chegada já dá para ter uma idéia bem clara disso. Para alguns, a Grécia é considerada um "país arquipélago".

Praça Syntagma, sede do Parlamento  da Grécia (Maio/2008)

Na foto acima, um de nossos correspondentes na praça Syntagma. Observem que eles estão "bem calminhos"... Você deve estar se perguntando: eles quem? Fácil: nosso correspondente e a Praça Syntagma. Só pra lembrar: na semana passada, os ânimos estavam "ligeiramente alterados" por manifestações populares contra a aprovação do "pacote fiscal" sugerido pelo governo ao Parlamento. Parafraseando Heráclito, essa foto provavelmente não poderia ter sido tirada na última semana... Ambos tinham mudado...

Na praça, duas coisas chamavam à atenção: primeiro, ali é a sede do Parlamento da Grécia (palco do que nas últimas semanas tem se tornado o centro das discussões do mercado financeiro global: a aprovação do pacote fiscal que foi condicionado à concessão de empréstimos à Grécia, pelo FMI e pela União Européia, para que sejam honrados seus títulos da dívida pública). 

A segunda coisa é que no subsolo da praça fica a estação de metrô central de Atenas, que leva o mesmo nome: Syntagma.  O que se destacou para mim é que o metrô era uma obra nova. Muito dinheiro havia sido investido ali. Padrão de qualidade internacional, "novinho em folha":
Interior de uma das estações do metrô de Atenas

Todo economista gosta de saber de onde vem o "dinheiro"... Para estes curiosos, o metrô de Atenas não faz mistério: em todas estações, há placas indicando que a obra foi financiada por fundos comunitários da União Européia. Como diria Milton Friedman, o grande ícone da Escola de Chicago: não existe almoço grátis... Enfim, aquele almoço estava pago, e quem o tinha pago já era bem conhecido...
Entrada de uma das estações de metrô em Atenas

Aliás, toda Atenas passava (em 2008) por reformas, em monumentos e serviços públicos, financiadas pela União Européia. Placas, como a visualizada na estação Syntagma, poderiam ser vistas também pelos que visitavam a Acrópole (fotos abaixo).

Conservação da Acrópole financiada por fundos comunitários da UE

Vista da chegada à base da antiga cidade de Atenas

O Parthenon e a decepção de quem queria tirar uma foto ideal (sem andaimes)

O monumento das Cariátides, Erecteion/Acrópole (Atenas/2008)

A conclusão de nosso texto, curiosamente, nasce durante uma caminhada despretensiosa pelas ruas  do centro histórico de Atenas, à caminho de seu mercado público mais famoso: Monastiraki. Nessas andanças pelo mundo, às vezes os insights mais originais surgem diante de cenas prosaicas. 

No nosso caso, veio diante de uma banca de revistas (foto abaixo): quem estuda economia, nos primeiros contatos com a matéria, toma conhecimento de que a primeira referência ao seu "estudo sistemático" nasceu na Antiga Grécia, pelas considerações de Aristóteles que a apresentou (há milênios) como o ramo de estudos da gestão (nomos) da casa (oikia), daí: oikianomos  (economia ou "governo da casa"). 

Aristóteles veio à minha mente quando passei pela já citada banca de revistas e vi o título (oikia) que no Brasil, seria "Casa". Fiquei - sinceramente - impressionado com  a importância da Grécia na matriz cultural do Ocidente. Uma revista de decoração que, no Brasil, não tem "glamour" acadêmico nenhum, em Atenas, dá pra citar como referência etimológica fundamental de um campo de estudos tão "querido" por nossa cultura: a economia.

Revistas expostas numa banca, em Atenas (2008)
As lições da Grécia não são poucas: pessoas, assim como países tem de definir bem as suas escolhas. Quando não se é rico, quando é necessário trabalhar para "financiar" os sonhos, "trocar bem" é fundamental e é disso que a economia trata: trocas conflituosas de recursos escassos entre necessidades ilimitadas (e aqui é fácil explicar: quantas pessoas você conhece que independentemente do que possuam sempre querem mais?) Isso é natural do ser humano. Querer sempre mais. O problema é que dinheiro não nasce em árvores....

Para muitos leitores (entre uns 8 e 9 assíduos - nossas estatísticas tem mostrado que o número de leitores do Viagens & Reflexões tem aumentado), aquele citado esforço de economizar na diária do hotel (dormindo em Orly), no vôo barato (EasyJet com direito à oxigênio) e no taxi que foi trocado pelo RER (sistema de transportes ferroviários interurbanos de Paris),  pode ter parecido exagerado. Mas quando se dispõe de poucos recursos para financiar sonhos, é fundamental que se faça uma boa "gestão da casa", ou de forma mais direta: que se economize. 


Para muitos, uma alternativa viável ao casal viajante (nós dois) poderia ser a seguinte: tomar um empréstimo bancário, viajar "em grande estilo" (sem essas economias e esforços miseráveis) e quando voltar pagar a dívida em inúmeras parcelas, cada uma com sua correspondente parcela de juros... (No Brasil, a taxa para crédito ao consumidor pode chegar a fáceis 250% ao ano, isso só de juros. É isso mesmo: experimenta tomar dinheiro emprestado numa financeira...);


Isso - na prática - poderia significar ter de vender "a alma" para pagar as dívidas acumuladas. É óbvio que tal pagamento implicaria viajar menos, pois não há milagre: quando se toma dinheiro emprestado, os juros "consomem" os esforços de trabalho que poderiam ser direcionados a novas viagens. Uma coisa dá pra afirmar: provavelmente é mais satisfatório gastar com viagens a pagar juros. Gastar o dinheiro que se toma emprestado é bom, a amortização e o pagamento dos juros é que são "elas"...

Os gregos, agora, têm faceado a parte ruim da "farra global do crédito" (para os que tiverem interesse vale muito a pena conferir o artigo de Norman Gall publicado pelo Instituto Fernand Braudel (Dinheiro, ganância, tecnologia - A festa do crédito e a economia mundial). Construir metrôs novos, conservar monumentos públicos universais e gastar noutros destinos (aplicações orçamentárias) menos nobres com dinheiro emprestado é fácil. Sempre cabe à sociedade fiscalizar o destino escolhido dos recursos públicos (pelos seus representantes). O difícil é pagar a conta...

O ponto conclusivo e fundamental é que da mesma forma que uma pessoa muito rica não precisaria se "apertar" para conhecer Atenas (assim como nós  fizemos), os suíços não precisariam de um pacote tão "duro" para viabilizar seu equilíbrio fiscal. A Grécia não é tão rica como a Alemanha ou Suíça, não é portanto adequado querer manter padrão de gastos públicos incompatíveis com sua realidade. 

Existe uma máxima dos consultores e planejadores financeiros: Não se pode querer "levar a vida" dos outros. É fundamental que cada um pague seu próprio almoço, alerta Friedman. Isso é a essência do que se pode considerar a boa "gestão da casa" aristotélica...