domingo, 14 de agosto de 2011

Entre a Chapada dos Veadeiros, Paris e a crise iminente...

Este post é a narração das últimas duas semanas.

Quanto à última semana, todos já sabem: o "humor" nos mercados internacionais não estava lá essas coisas...

Há duas semanas, visitei o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Percorri a trilha dos Cânions. O percurso é supervisionado pelos guias do parque. São mais de dez quilometros no total. Um percurso que surpreende pela paisagem. O Cerrado impressiona pois lembra escassez. Engana, portanto. Nele, situa-se uma proporção superior a um terço da biodiversidade catalogada no país.

O trajeto em rodovia, a partir de Brasília, tem aproximadamente 250 km. Saindo às 15h de Brasília, chega-se a Alto Paraíso de Goiás às 18h. Para quem tiver interesse, o povoado de São Jorge situa-se à porta do Parque Nacional. Para quem preferir a conveniência de acordar à porta do Parque, vale muito a pena ficar lá. Há vários restaurantes e pousadas bem estruturadas.

Preferimos ficar no município de Alto Paraíso de Goiás. Uma amiga deu a dica: como São Jorge não é área urbana, você deve se preparar para encontrar animais silvestres em todos os lugares...


A BR-010 e a Chapada no horizonte

Cerrado, ao longo da GO-118, "cedendo" espaço ao agribusiness
O Cerrado não é a Floresta Amazônica, definitivamente... O clima é seco e durante vários meses do ano (entre julho e setembro), a umidade relativa do ar "beira" o nível de áreas desérticas. Sua vegetação é esparsa e arbustiva. O solo é seco e pedregoso. E isso tem uma implicação não trivial: 1 km naquele terreno desgasta muito mais por conta das lesões que causa ao solado dos pés. O sol é inclemente e a sensação é de que está caminhando num deserto. Então, imagina como ficam os pés após os dez quilometros da trilha...
Vegetação arbustiva do Cerrado, Chapada dos Veadeiros (2011)
Fotos do terreno, Chapada dos Veadeiros (2011)

Uma das poucas fontes de água disponíveis ao longo da trilha

O calor do percurso tem um significado não tão evidente no início, mas depois, tudo se revela:

Todo o esforço da ida é recompensado quando se chega ao primeiro dos Cânions. Lá é possível mergulhar e nadar por quase duas horas. Depois, mais duas horas na Cachoeira das Cariocas. E isso tem um significado especial quando se está caminhando a muito tempo. A água revitaliza o corpo e todo o esforço da caminhada encontra seu sentido.


Um dos cannions da Chapada dos Veadeiros (2011)  

Cachoeira das Cariocas, Chapada dos Veadeiros (2011)


A jacuzzi natural das Cariocas, Chapada dos Veadeiros (2011)

Os momentos finais da trilha é que me chamaram mais à atenção: uma das integrantes do grupo (o grupo tinha dez pessoas, o limite permitido por guia acompanhante) chorou copiosamente. Na minha avaliação o choro sinalizava quanto ao cansaço e tensão da caminhada. Embora um trajeto de dez quilometros não pareça tão absurdo, num cenário árido, com pedras pelo caminho a machucar os pés e sol de "rachar", o choro não deveria ser qualificado como irrazoável...

No cotidiano, em trajetos urbanos, com ruas asfaltadas e calçadas adequadas, caminhar dez ou até mais pode passar despercebido, na Chapada, não.

Há uma semana, na sexta-feira, tive a sorte (e é bom que se registre: sorte é a mais fundamental das competências) de encontrar às 18:40, no elevador do prédio em que trabalho, saindo do expediente, duas colegas com as quais nunca havia conversado antes e das quais não tenho a mínima ideia de seus nomes, mas cujo diálogo decifrou-me o enigma. Vou citar "aproximadamente" as palavras de uma delas para outra:

"Imagine só: Foi maravilhoso! Conhecemos tudo! Caminhamos desde o Hotel de Ville até Montparnasse, atravessando a rive gauche..."

Só para ilustrar os extremos do trajeto acima citado, abaixo estão: o Hôtel de Ville (a prefeitura de Paris, fotografada à noite por nossa equipe em viagem à cidade, em 2008) e a Tour de Montparnasse, ao fundo, numa foto de um dos nossos correspondentes, em 2004.

Hôtel de Ville, Paris (2008)

Tour Montparnasse ao fundo, Paris (2004)
Entendi e me lembrei, naquele exato momento, das diferenças que explicavam tanto o choro da minha companheira de trilha (pela Chapada dos Veadeiros) quanto a euforia de minha colega anônima ao narrar sua experiência em Paris. Eu havia percorrido (ida e volta) o trajeto similar em Paris, no ano de 2004. Esse trajeto perfez mais de dez quilômetros, isso, depois de ter percorrido as infindáveis galerias do Louvre em busca da Gioconda, do Código de Hamurabi, da Vitória de Samotrácia e finalmente da Venus de Milo. Ah, sim, lá vai uma dica: se você quiser conhecer e percorrer todo o Louvre, são necessários vários dias. Há bilhetes mensais para quem quer degustar e conhecer todo o acervo do museu...

Entrada do Museu do Louvre, Paris (2008)
Código de Hamurabi (Louvre, Paris)

Galeria de escadas com a Vitória de Samotrácia ao fundo (Louvre, Paris)

Venus de Milo (Louvre, Paris)

Gioconda (Louvre, Paris)
Parece pouco, mas procurar essas quatro obras de arte, no Louvre em 2004, balbuciando palavras em francês... Não foi trivial. No fim daquele longínquo dia de 2004, eu percorrera - com certeza - mais de vinte quilômetros. Só que - curiosamente - ao final da trilha da Chapada eu sentia como se tivesse caminhado mais... O que era - evidentemente - um grande equívoco.

Embora seja óbvio que a diferença de contexto (entre Paris e a Chapada) explique parte significativa do abismo que separa o choro e a euforia, ela não explica tudo... Naquele elevador,  há uma semana, compreendi que a resposta está no âmbito psicológico. É o cérebro e o comportamento humano que explicam essa aparente inconsistência de avaliação.

Em caminhadas como as da trilha dos Cânions, toda concentração é no terreno, para evitar quedas ou torções. Em cidades como Paris, tudo chama à atenção e não é propriamente o chão... Os edifícios e obras de arte literalmente distraem o cérebro que, "ocupado", não dá conta do esforço físico que o corpo está realizando. É óbvio que no dia seguinte, a "brincadeirinha" do nosso cérebro (nos enganando) se fará sentir em cada músculo e articulação dos membros inferiores...

Agora, prezado leitor, você deve estar se perguntando: Sim, e o que tudo isso até agora tem haver com a crise? 

A principal e mais fundamental característica da economia é a fé. Jonh M. Keynes cunhou uma expressão que define bem como o sistema funciona: profecias auto-realizáveis. Em economia, se todos acreditam que tudo vai dar certo, os investimentos acontecem e o crescimento ocorre. Por outro lado, quando o referencial muda e o pessimismo se instala, crescer não se torna tão provável.

A economia é um campo de abordagem fortemente psicológica. Os referenciais são tudo. Referências são como sinalizações ao longo de uma via. Só que num plano mental.  

Para alguém que já caminhou "sorrindo" mais de 20 km (num só dia em Paris) e depois de alguns anos vai caminhar "sofrendo" os 10 km na trilha da Chapada, os referenciais são muito importantes. Isso vale tanto para pessoas, quanto para economias inteiras.

O sistema econômico global tem experimentado uma crise de referências: o dólar se enfraquece, a dívida soberana de países centrais (que sempre significou "aplicação financeira livre de risco") se torna "arriscada demais" e os países ricos se tornam "menos" ricos. Isso tudo, definitivamente, não é trivial...

Num plano psicológico, a iminente crise econômica funciona como se o cérebro sinalizasse para o corpo, logo no início da caminhada pela Cidade Luz,  que não vai dar... Antes, pelo menos, o aviso só chegava no dia seguinte. O corpo doía, mas a caminhada estava feita. Talvez, agora, seja mais provável que não percorramos os vinte quilômetros num dia só. A psicologia humana tem dessas coisas: às vezes, percebemos que a caminhada, mesmo em Paris, está exagerada...